quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Enfim, o futuro chegou! Só que não...



Já estamos no ano certo. Agora falta chegar dia certo: 21 de outubro de 2015. Essa era a data que aparecia no painel do DeLorean do Doc. Emmett Brown (Dr. Brown) no início do filme De Volta para o Futuro – Parte 2, de 1989. Recentemente resolvi assistir novamente a trilogia em sequência (bendito Netflix) e percebi que a data estava chegando.


Fiz o exercício de assistir a parte 2 prestando atenção nos detalhes. E aí resolvi escrever um daqueles textos inúteis, mas curiosos, sobre o que o filme acertou e o que errou. Vamos lá.

Os óculos do Dr. Brown

No início do filme é repetida a última cena da parte 1 eis que salta do DeLorean um Dr. Brown, vindo do futuro, vestido com uma roupa ridícula (um sobretudo no tom “amarelo Restart”) e um óculos prateado. O sobretudo colorido não era grande novidade, já que as boybands dos anos 1980 já abusavam das cores (Locomia, Menudos, Dominó, Polegar). Mas os óculos “escuros” espelhados...  Até que os produtores foram na direção correta. Só o prateado que ficou meio exagerado, mas as linhas foram certeiras. Além do desenho próximo do atual, algumas funcionalidades também já são possíveis, como projeção de exibição de imagens (no filme, o retrovisor do DeLorean), atendimento de telefone e e vídeo conferência pelo óculos. Mas não é todo mundo que possui um desse em 2015. Até já testei um Google Glass, mas não vejo pessoas com isso na rua. Além ser menos comum, a tecnologia usada parece ser diferente. No Google Glass, a imagem é projetada diretamente na retina e não na lente, como sugere o filme.

Uso de resíduos orgânicos como combustível

A tecnologia existe. Já existem muitas propriedades que são abastecidas por gás proveniente da compostagem de resíduos orgânicos. Mas a eficiência energética e a velocidade de geração está muito longe do que é apresentado no filme.

Carros voadores e aerovias

Definitivamente não estamos nem perto disso. Ainda que algumas megalópoles tenha intenso trânsito de helicópteros, não é nada que se pareça com a cena inicial do filme.


Indutor de sono

Quando Jeniffer começa a perguntar demais sobre o futuro, Dr. Bronw posiciona um objeto sobre os olhos da moça que a faz dormir. Seria um “indutor de sono gerador de ritmo alfa”. O máximo que esse objeto inspirou foi o neuralizador dos Homens de Preto (Man in Black, 1997). Induzir sono, só por meio de drogas tarja preta.

O relógio do Dr. Brown

Assim que o DeLorean pousa, o Dr. Brown pede para que Marty McFly desça do carro e troque de roupa. Mas Marty argumenta que está chovendo. O Dr. Brown pensa, olha para o relógio e declara: “Espere mais cinco segundos”. E a chuva para. Ainda que a previsão do tempo não seja tão precisa, ela está sim nos relógios. Ao menos naqueles smart clocks (Galaxy Gear, G Watch, Apple Watch). No fim, ele arremata: “Pena que o correio não seja tão eficiente quanto a previsão do tempo”. Completamente errado...

Discos prateados

Na mesma cena, Marty McFly desce do carro e começa a observar. Ao fundo aparecem pacotes com discos prateados. O filme não diz o que seriam, mas o tamanho deles sugere que são discos de áudio, pois seus tamanhos são semelhantes aos dos LP e discos compactos de vinil (tem até uns dois do tamanho de CD, DVD e BluRay atuais). O que pode parecer um acerto, não merece comemoração. Primeiro que os discos a laser (Laserdisc) começaram a ser comercializados 1982 (no Brasil é que levou mais tempo para se popularizar). Segundo que hoje, o formato digital de áudio, não requer necessariamente um disco para ser reproduzido.

Rejuvenescimento

Em seguida, Dr. Brown diz que foi a uma clínica de rejuvenescimento e foram tiradas algumas rugas (ok), arrumaram o cabelo (ok), mudaram o seu sangue (possível, mas não como técnica de rejuvenescimento), adicionaram uns 30 a 40 anos a sua vida (não), além de substituírem o baço e o colon (possível, mas não como técnica de rejuvenescimento). Enfim, essas técnicas existem, mas a maioria é utilizada para rejuvenescimento. O máximo que se consegue hoje é uma aparência mais jovem.

Tecnologia de reconhecimento facila

Dr. Brown utiliza um objeto semelhante a um objeto quadrado para observar as pessoas que estão passando na rua. O objeto marca e acompanha rostos, indica a distância e algo que parece a posição geográfica. Tudo isso está presente nos nossos smartphones e máquinas fotográficas.

Roupas autoajustáveis

Não conheço nada desse tipo (ao menos não comercialmente vendido). Mas a marca do tênis (Nike) eles acertaram. Ainda é muito popular 25 anos depois de lançado o filme. Secagem automática? Nem pensar.

Bonés ridículos e bolsos para fora

Ninguém (que eu conheça) usa bolsos para fora, mas hoje existem bonés de aba longa até mais ridículos que o utilizado por Marty no filme.

Jornais de papel

Ainda que muita gente tenha decretado a morte do jornal diário impresso em papel, ele sobrevive (e deve ter vida longa). E o USA Today continua sendo o jornal de maior circulação nos EUA até hoje. A marca não mudou muito, mas o estilo de fonte utilizado pelos produtores na marca do jornal de 2015 já saiu de moda a muito tempo. Tudo bem que o mais provável seria o Dr. Brown sacar um smartphone e mostrar a notícia, mas a cena como foi gravada ainda é bem comum. Já o fato noticiado (uma prisão, julgamento e condenação num intervalo de duas horas) está longe de ser realidade. Um processo judicial concluído em duas horas seria uma temeridade. E os advogados ainda existem, ao contrário do previsto na fala do Dr. Brown.

O design dos carros

Muitos modelos que aparecem no filme lembram modelos atuais. Mas alguns designs permanecem restritos aos protótipos e salões de exposição.

Tubarão 19

Spilberg até tentou promover o filme de sua franquia Tubarão, mas ele não passou da parte quatro, lançado dois anos antes da estreia de De Volta para o Futuro – parte 2. A tecnologia 3D para filmes é muito mais popular que em 1987 (Tubarão 3, de 1983, foi lançado em 3D). Mas ainda é inviável no meio da rua, sem óculos, como visto por Marty.

Texaco

Segue como uma importante marca de postos de combustíveis nos EUA, mas no Brasil seus postos foram vendidos para a rede Ipiranga. E ainda não existem robôs prestando o serviço aos carros (nos EUA, nem as pessoas abastecendo, como ainda aparecia em 1955, no primeiro filme da série).

Anos 80

Sim, eles ainda estão na moda. Existem saudosistas de todas as décadas, mas os saudosistas dos anos 1980 estão espalhados por todos os lados. No Café `80s há referências a personagens, marcas e objetos que nunca saíram de moda (Michael Jackson, fliperamas, JVC, Charles e Diana, Pac Man, Pepsi) e a alguns hoje quase desconhecidos (Aiatolá Khomeine, Ronald e Nancy Reagan, Wild Gunman).

Atendimento virtual

Ele existe, mas não é o padrão. Todas as tecnologias necessárias existem e são relativamente populares. Reconhecimento de voz, menu multiopções, avatar para atendimento. Mas o garçom de carne e osso ainda é o que nos deixa mais a vontade.

Videogame “sem as mãos”

Marty mostra para dois garotos como se joga um fliperama dos anos 1980. Utiliza uma replica de revolver para matar inimigos na tela. Após observarem a demonstrações, os garotos comentam: “Tem que usar as mãos? Parece brinquedo de bebê!”, sugerindo que em 2015 os jogadores não precisariam de objetos para interagir coma tela. Se for só isso, estamos lá. Mas se o texto era para sugerir o controle com a mente, nossa tecnologia está engatinhando. O filme não mostra como seriam os jogos.

Hoverboard

Essa é a previsão mais famosa e mais sonhada pelos garotos da época. Um skate ou um patinete sem rodas, que flutua a poucos centímetros do solo. Na teoria, ele pode existir, mas ele não andaria sobre qualquer superfície (não sem levantar muita poeira). A fabricante do brinquedo no filme (Matel) ainda é a maior do mundo no segmento. Mas os únicos veículos magnéticos que rodam comercialmente são trens, exatamente porque utilizam trilhos. No filme, além dos skates e dos carros, também flutuam as câmeras fotográficas de jornais, uma espécie de cadeira de rodas que deixa o usuário pendurado (de cabeça para baixo, no caso do pai de Marty) e uma coleira que passeia com o cachorro sozinha.

Chicago Cubs

Marty observa um painel holográfico que informa que o time de baseball Chicago Cubs foi campeão da World Series. Um senhor ao lado dele completa: quem diria? Praticamente impossível. Em 1987, o Chicago Cubs completava 79 anos sem título. Uma verdadeira maldição. Que persiste até hoje, o maior jejum da história da MLB (Major League Baseball, a liga norte-americana de basebol). No filme, esse jejum é quebrado em 2015. A conferir. A final da temporada 2015 está marcada para o dia 4 de outubro, mas a World Series acontecerá de 27/10 a 4/11 (após a chegada de McFly ao futuro. Apesar da data não coincidir, quem sabe não é a hora de quebrar a maldição?

Atualização de 7/10: o Cubs avançou para os play offs da MLB.

Papel a prova de poeira

Segundo uma vendedora de um antiquário, as sobrecapas deixariam de ser usadas com a invenção do papel à prova de poeira. Nem tal papel foi inventado, nem as sobrecapas deixaram de existir, ainda que não sejam muito populares.

Identificação biométrica

A tecnologia é popular, mas não para abrir a porta de casa, principalmente em bairros de classe média, como no filme. Alguns caixas eletrônicos já funcionam com a leitura da digital no lugar da senha, mas as maquininhas de cartão (como no táxi do filme), não. A AT&T continua existindo e se expandindo, mas não é conhecida por esse tipo de tecnologia. A casa inteligente também é uma realidade, mas não é popular.

Inflação

Os valores sugeridos para alguns produtos no filme são bem superiores aos que são encontrados hoje em dólar.

Aparelhos de TV

Em cheio! A TV da casa do Marty do futuro tem tela fina (pendurada na parede como um quadro), formato widescreen, bem maior que o padrão de TV da época (4:3) e possui reconhecimento de voz (já presente em alguns modelos de hoje). Só não conheço um modelo que apresente tantos canais ao mesmo tempo. Mas videoconferências são possíveis conectando o aparelho à internet e acoplando uma câmera. Alguns modelos já vêm preparados de fábrica.

Comida desidratada

Existe, mas da mesma forma que existia nos anos 1980. Poucos são os alimentos que são desidratados para ocupar menor volume, como no caso da pizza que os McFly comem. E a Black & Decker continua sendo um fabricante relevante, não só de fornos, mas de centenas de outros aparelhos domésticos e industriais.

Gravata dupla

Graças a Deus, nenhum imbecil teve essa ideia. Felizmente, o filme errou.

Fax

Objeto de desejo para os conectados nos anos 1980, hoje é praticamente uma peça de museu. No filme, a casa dos McFly poussem pelo menos três desses aparelhos. Praticamente a mesma quantidade que existe numa cidade inteira hoje em dia.

Quem sabe até outubro alguma coisa muda.

domingo, 14 de setembro de 2014

Quando a militância atrapalha

Vamos começar pelo começo: há pessoas preconceituosas no Brasil e no mundo. Preconceito em relação à cor da pele, em relação à sexualidade, em relação religião, em relação ao local de nascimento, em relação à  conta bancária, em relação às opiniões... enfim, há pessoas preconceituosas e é bom que a sociedade reconheça isso e que lute contra tratamento diferenciado motivado pelo preconceito. Ponto.

O problema começa quando o desejo de justiça vira mania de perseguição. Aí as pessoas começam a ver coisas onde não existe (ou ainda não existe). Eis que me deparo hoje com a seguinte notícia: “Globo é autuada após 11 denúncias de racismo contra a série ‘Sexo e as Negas’”. A série só estreia na próxima terça-feira, 16/9, e já tem gente vendo racismo naquilo que ainda nem foi ao ar!!! O problema é o título? Como disse o Miguel Falabella (autor da série), “qual é o problema afinal? É o sexo? São as negas?”

É legítimo que os grupos que se sentem agredidos formem associações, lutem para informar a sociedade dos abusos sofridos e busquem reparação de danos. O problema é quando o espírito de corpo supera desejo inicial de justiça. Quando o radar de injustiçado começa a caçar justificativas para sua militância. Essa mania de perseguição é tão danosa quanto o preconceito.

É nesse momento que o texto fica mais importante que o contexto. É aí que o politicamente correto vira caça às bruxas. É aí que o preconceito passa a ser usado pela vítima. Todo branco vira “elite”, todo religioso vira fundamentalista, todo paulista vira “sulista”, todo acionista de banco vira explorador, todo liberal vira “reacionário”. E vira racista uma série de TV que ainda nem foi ao ar, escrita por um homossexual, estrelada por mulheres negras e que retrata com humor cenas do cotidiano de um bairro pobre.

Lutar pela justiça não exige balançar bandeira (como defende o próprio Falabella). E tenho me convencido que quanto mais bandeira se balança, maior o risco de se causar um desserviço à causa. Quanto maior a histeria, mais munição se oferece aos verdadeiros discriminadores. Não se pode exigir tolerância de apenas um lado, sob risco que começarmos a queimar as bruxas e as suas casas como na idade média.

http://odia.ig.com.br/diversao/televisao/2014-09-11/globo-e-autuada-apos-11-denuncias-de-racismo-contra-serie-sexo-e-as-negas.html

http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/parte-da-casa-de-torcedora-gremista-e-incendiada-2