domingo, 14 de setembro de 2014

Quando a militância atrapalha

Vamos começar pelo começo: há pessoas preconceituosas no Brasil e no mundo. Preconceito em relação à cor da pele, em relação à sexualidade, em relação religião, em relação ao local de nascimento, em relação à  conta bancária, em relação às opiniões... enfim, há pessoas preconceituosas e é bom que a sociedade reconheça isso e que lute contra tratamento diferenciado motivado pelo preconceito. Ponto.

O problema começa quando o desejo de justiça vira mania de perseguição. Aí as pessoas começam a ver coisas onde não existe (ou ainda não existe). Eis que me deparo hoje com a seguinte notícia: “Globo é autuada após 11 denúncias de racismo contra a série ‘Sexo e as Negas’”. A série só estreia na próxima terça-feira, 16/9, e já tem gente vendo racismo naquilo que ainda nem foi ao ar!!! O problema é o título? Como disse o Miguel Falabella (autor da série), “qual é o problema afinal? É o sexo? São as negas?”

É legítimo que os grupos que se sentem agredidos formem associações, lutem para informar a sociedade dos abusos sofridos e busquem reparação de danos. O problema é quando o espírito de corpo supera desejo inicial de justiça. Quando o radar de injustiçado começa a caçar justificativas para sua militância. Essa mania de perseguição é tão danosa quanto o preconceito.

É nesse momento que o texto fica mais importante que o contexto. É aí que o politicamente correto vira caça às bruxas. É aí que o preconceito passa a ser usado pela vítima. Todo branco vira “elite”, todo religioso vira fundamentalista, todo paulista vira “sulista”, todo acionista de banco vira explorador, todo liberal vira “reacionário”. E vira racista uma série de TV que ainda nem foi ao ar, escrita por um homossexual, estrelada por mulheres negras e que retrata com humor cenas do cotidiano de um bairro pobre.

Lutar pela justiça não exige balançar bandeira (como defende o próprio Falabella). E tenho me convencido que quanto mais bandeira se balança, maior o risco de se causar um desserviço à causa. Quanto maior a histeria, mais munição se oferece aos verdadeiros discriminadores. Não se pode exigir tolerância de apenas um lado, sob risco que começarmos a queimar as bruxas e as suas casas como na idade média.

http://odia.ig.com.br/diversao/televisao/2014-09-11/globo-e-autuada-apos-11-denuncias-de-racismo-contra-serie-sexo-e-as-negas.html

http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/parte-da-casa-de-torcedora-gremista-e-incendiada-2